Faz de conta que as cidades são cidades
Começámos a reparar no vizinho de cima a puxar a expetoração, na vizinha da frente que gosta de caril com bastante regularidade e na velhota do rés-do-chão que talvez tenha desistido de limpar a areia dos gatos.
Roubei descaradamente o título à série produzida por Martin Scorsese para a Netflix, em que o realizador conversa com a mais célebre escritora-que-nunca-escreve, Fran Lebowitz, para constatar que as cidades, devido à pandemia e aos sucessivos confinamentos, se transformaram numa espécie de províncias. Sair à rua e só encontrar mercearias abertas tornou-se algo normal. Passámos a comprar o pão na padaria e a caminhar de um ponto ao outro sempre a pé, claro, porque andar de transportes públicos só mesmo em caso de necessidade.
Passeamos no nosso bairro e começámos a reparar nos vizinhos, e até descobrimos algumas curiosidades, como a vizinha da frente que passa a vida à janela, certamente a espantar a solidão que habita no apartamento, e observa a vida dos outros como se assistisse a um programa de televisão. Descobrimos, afinal, que é anã (porque a vimos sair de casa para ir comprar fruta) e que faz da marquise não só um miradouro para espreitar os outros, mas também um pódio de normalidade, empoleirada todo o dia em cima de um banco, sem que ninguém saiba.
Descobrimos ainda novas sonoridades — o vizinho de cima a puxar a expetoração do mais fundo dos brônquios e a escarrar, sabe Deus onde, todas as manhãs à mesma hora, tal qual relógio suíço. E também o sentido do olfato ganha outra importância no reconhecimento dos outros. Sentimos os cheiros vindos das outras casas à hora das refeições e, então, ficamos a saber que a vizinha da frente gosta de caril com bastante regularidade e que a velhota do rés-do-chão talvez tenha desistido de limpar a areia dos gatos, dado o fedor no patamar correspondente. E sabemos que está viva porque ouvimos alto e bom som o zapping constante entre os vários canais da pior espécie de programas de entretenimento. A cidade torna-se, pois, um bairro, cingido a uma área restrita e aos mesmos rostos todos os dias.
À janela, repara-se nos senhores que limpam o arruamento, nos vizinhos que passeiam os cães, e que relações têm com os respetivos bichos pela forma como seguram a trela, nos transeuntes que, não sendo da rua, não devem morar longe. As cidades estão diferentes. O ruído passou de macro a micro. Ouvimos o martelar de alguma obra em vez do buzinar constante, emaranhado em tantos sons que compõem o habitual ruído branco de uma cidade. Parece-nos que há mais pássaros no céu e menos motores de aviões, está tudo sossegado.
O medo faz isso às pessoas, torna-as quietas por fora e inquietas por dentro; também o mar parece mais calmo antes de uma tempestade. "Faz de conta que a cidade é uma cidade", é o que devemos continuar a dizer a nós próprios, pois sabemos bem o poder que tem a imaginação. Agora mais do que nunca, é preciso imaginar.
*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990.
Na esfera do amor, quase tudo é possível, ainda mais quando se fala da influência dos astros. Estas são as duplas que mais sentido fazem juntas.
Numa entrevista exclusiva ao canal de televisão norte-americano CBS, o realizador, de 85 anos, declara-se "perfeitamente inocente". É a primeira vez, em três décadas que fala publicamente sobre as acusações de abuso sexual à filha adotiva, Dylan Farrow.
Os benefícios de uma boa ingestão de água, todos os dias sem excepções, não se ficam pela hidratação: melhora a digestão, a saúde cardíaca, mantém a temperatura corporal dentro da média e otimiza o desempenho do cérebro.
E se soubesse que componentes presentes nos medicamentos são incompatíveis com os seus genes? Ajudar a perceber isso mesmo e assim a evitar reações negativas é a finalidade desde novo teste genético, que só precisa de ser feito uma única vez na vida.